Causos, contos e prosas

A Pirarara e o pescador de latinhas

 

O fato aqui narrado, apesar de ser história de pescador, aconteceu de verdade. Há cerca de trinta anos, sempre no mês de Julho, na temporada de férias dos goianos, eu e um grupo de amigos, pescamos na barra do Rio Verde com o Rio Javaés, na Ilha do Bananal – TO.

Numa dessas pescarias, final de tarde, arrumamos a tralha e descemos o Rio Javaés em busca de peixes de couro. A lua estava ótima para pesca. Apoitamos, cerca de duas horas de canoa, num espraiado conhecido como barra do piqui. Era um local ideal para pesca de pintados, surubins, bico de pato, mandubés e a famosa Pirarara (pode atingir cerca de 1,5 m de comprimento e pesar mais de 100 kg.). Vale ressaltar que naquela época a pesca da pirarara era permitida. Hoje, a legislação local não mais permite a sua pesca.

Nesse dia, a pesca foi considerada boa. Pegamos alguns pintados e três pirararas. Já no acampamento, a turma reuniu-se para a limpeza do pescado. Neste ínterim, formou-se em volta dos pescadores um circulo de curiosos observando a limpeza dos peixes.  Para surpresa de todos, inclusive da nossa, ao limpar uma das pirararas, foi encontrado dentro da barrigada da mesma, uma latinha de cerveja, amassada, vazia e desgastada pelo tempo. O espanto foi geral. Um dos curiosos, que se fazia presente, indagou ao grupo de pescadores se era normal encontrar lata de cerveja dentro do estômago da Pirarara. Um dos pescadores, de nome Júnior, que gostava de caçoar das pessoas, respondeu, em tom de gozação, que para pescar pirarara era necessário amarrar uma latinha de cerveja na linhada de pesca. Porém antes, era necessário cevar o local da pesca, arremessando latas de cerveja no rio.

Pronto. O estrago estava feito. Dois dias após o fato, fomos procurados por um cidadão, de um acampamento próximo, nos acusando de termos ludibriado o seu filho fazendo com que o mesmo, no período noturno, fizesse pescaria com latas de cerveja. De acordo com o cidadão foram mais de cinco caixas de cerveja em lata arremessadas ao longo do Rio Javaés. A notícia se espalhou. Em vez de peixes, a partir de então, os pescadores apoitavam suas canoas e ficavam na espreita recolhendo as latinhas de cervejas que desciam  boiando mansamente pelas águas do Rio Javaés.

Autor: Carlos José Ferreira de Oliveira